Pesquisa disseca o universo das piadas


Mestrando do IEL analisa anedotas regionais sobre gaúchos, mineiros, paulistas e cariocas


LUIZ SUGIMOTO

O leitor pode conhecer aquela piada do gaúcho com o mineiro, mas dificilmente terá refletido sobre as sutilezas empregadas na construção dessas pequenas peças literárias para que elas o façam rir. “Este trabalho nasce de uma preocupação banal e um tanto cômica: explicar piadas. E isso, no fundo, não tem a menor graça. Textos curtos com graus variados de complexidade, as piadas podem deixar um analista bastante neurótico”, afirma Gustavo Conde, bem humorado, na introdução da dissertação de mestrado Piadas regionais: o caso dos gaúchos, defendida junto ao Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. Apesar dos gaúchos no título, o mestrando incluiu na pesquisa os mineiros, paulistas e cariocas, respeitando o ranking de preferências no anedotário nacional.

Conde alerta que nem todas as piadas selecionadas para o trabalho são hilárias, visto que a preocupação de um lingüista é mostrar a estrutura semântica do humor, o emaranhado de detalhes cenográficos, enunciados, ambigüidades lexicais, sintáticas e fonológicas, o “caráter” do interlocutor, o tom da narração. Tecnicamente, trata-se de análise do discurso, sustentada em teóricos como Michel Pêcheux e Dominique Maingueneau, sendo que a semântica e a pragmática também marcam presença através dos trabalhos de Victor Raskin e Paul Grice. Freud, outro que procurou explicar a essência das piadas, contribui com Os chistes e sua relação com o inconsciente, livro publicado há 100 anos. “Freud analisou uma relação de ‘chistes’, sempre pensando no inconsciente como fator determinante para esse tipo de prazer. Para ele, o prazer psíquico era proporcionado pela brevidade da piada, uma brevidade de tipo especial”, resume o mestrando.

Foco é estrutura semântica do humor

O professor Sírio Possenti, do IEL, é o orientador da dissertação. Autor de várias publicações na mesma linha de pesquisa, Possenti vê a piada como um fenômeno da linguagem dotado de técnica e de forma, que opera fortemente com estereótipos, geralmente servindo como veículo de um discurso proibido. “Por isso, os temas mais recorrentes nas piadas são sexo, racismo, corrupção, adultério, tragédias, defeitos físicos, etc, discursos que encontram barreiras para emergir no contexto social bem comportado e polido. Passam a ser um solo discursivo fértil, na medida que sua forma é menos comprometedora ideologicamente. Contar uma piada racista não implica necessariamente um enunciador racista. No máximo, em alguém com senso de humor de mau gosto ou maldoso”, acrescenta Gustavo Conde.

O fenômeno da piada é universal e, mesmo as culturas indígenas, trazem esta tradição de brincar com os sentidos da língua. Quanto às especificidades, são construídas a partir da literatura, da historiografia, das diferenças culturais e geográficas, do arquivo discursivo. Assim, o mexicano é ridicularizado pelo norte-americano, o belga pelo francês, o irlandês pelo inglês. Dentro de Portugal, os alentejanos é que se vêem rebaixados a “burros”. “Na literatura russa, encontramos o humor pesado, dramático e dolorido de Dostoievski. Millôr Fernandes já afirmara, de fato, que o tipo de humor mais agudo ‘é aquele que dói’. Isso lembra uma alfinetada bairrista do carioca Nelson Rodrigues, para quem ‘a pior forma de solidão é a companhia de um paulista’. Temos aí uma piada que pega na ferida”, ilustra o mestrando.

Segundo Gustavo Conde, uma particularidade das piadas brasileiras é o regionalismo, a disputa entre culturas acirrada pelos diferentes sotaques de uma língua estabelecida em todo o território. Mas as piadas podem ser classificadas conforme a técnica (duplo sentido, deslocamento, condensação) ou tema (loiras, negros, papagaios): a primeira classificação concentraria seus critérios no material lingüístico e a segunda no aspecto discursivo, possibilitando ter diferentes técnicas para um mesmo tema e diferentes temas numa mesma técnica. O russo Victor Raskin, que publicou talvez o mais canônico dos livros sobre estudos lingüísticos do humor (Semantic Mechanisms of humor, 1985), afirma que sua teoria pretende formular as condições necessárias e suficientes, em termos “puramente semânticos”, para que um texto seja engraçado.

Regionalismo – O paulista é ironizado por Nelson Rodrigues por causa do estereótipo de trabalhador chato, esnobe, preconceituoso, tedioso, enquanto o carioca sustenta a fama de malandro, bom de lábia, folgado, aproveitador, vida boa. “Por que a mulher do paulista nunca fica gripada? Porque sempre dorme com um xarope”, emendaria o bonachão com anos de praia. “São esses estereótipos, provavelmente, o que torna as piadas sobre paulistas e cariocas mais interdependentes. Para a piada funcionar, um tem que estar em contraposição ao outro. Do ponto de vista da análise do discurso, os embates entre paulistas e cariocas são exemplares para observar o funcionamento das piadas regionais como um todo”, avalia Conde.

A imagem consagrada do mineiro é a de caipira tímido, desconfiado, pouco conversador, mas que possui o dom de ludibriar os outros e que sempre se dá bem. A dissertação traz uma definição de Frei Betto sobre mineirice: “Ser mineiro é dormir no chão para não cair da cama; sorrir sem mostrar os dentes. Desconfiar até do próprio pensamento (...) Mineiro é isso, sô! Come as sílabas para não morrer pela boca. Fala manso para quebrar as resistências do interlocutor. Sonega letras para economizar palavras. De vossa mercê, passa para vossemecê, vossência, vosmecê, você, ocê, cê, e num demora muito, usará só o acento circunflexo!”. Segundo Conde, o mineiro das piadas é dono de laconismo e lógica impassíveis que o deixam sempre em posição de superioridade. “É uma espécie de caricatura da competência pragmática”, complementa.

Quanto ao gaúcho, está no topo das ocorrências de piadas regionais. Na opinião de Gustavo Conde, trata-se de personagem singular no imaginário do brasileiro, por causa de referências históricas enaltecidas pela literatura, como a ligação com a terra, a lida com o gado, suas guerras, o desejo separatista e a proximidade geográfica e cultural com Argentina e Uruguai. “Sobre os gaúchos, a Internet privilegia a oposição macho-bicha, enquanto as publicações impressas elegem traços mais dispersos como a rudeza, o machismo, a ‘cornice’ e também a ‘bichice máscula’. O tema da ‘bichice’ mexe diretamente com o orgulho do personagem gaúcho e seu discurso da tradição, da defesa de honras heróicas e da identidade viril. O gaúcho é macho até na ‘bichice’, mantém a faca entre os dentes”, compara o pesquisador.

Ao final do trabalho, Gustavo Conde já encarava a análise de piadas como uma tarefa perfeita para lingüistas. “É a língua em seu funcionamento mais vivo. Numa piada, por sua natureza breve, os personagens que nela atuam têm de acionar de imediato a memória do leitor. Personagens como loucos, bêbados, deficientes físicos e fanhos são caracterizações psicológicas e físicas de forte apelo popular, verdadeira iconografia discursiva”, afirma. Não por acaso, o lingüista já vê a entrada do estereótipo de um novo grupo social no ranking do anedotário nacional: “Você sabe por que a espingarda do mineiro tem dois canos? Para matar dupla sertaneja de Goiás”.


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