O Campeonato Mundial de Piadas: Qual a melhor piada do mundo?


Uma pesquisa feita pela universidade de Hertfordshire, Inglaterra, colocou em votação na internet 40 mil piadas, candidatas ao título de a melhor piada do mundo. Votaram mais de dois milhões de internautas, de setenta países diferentes.

Uma sátira sobre a estupidez humana envolvendo caçadores foi escolhida, como a melhor piada do mundo. O concurso foi promovido na internet por meses e atraiu 2 milhões de votos de 70 países. A campeã venceu uma disputa acirrada. Superou 40 mil piadas concorrentes. Parece gozação, mas a experiência é séria. Foi feita pela universidade de Hertfordshire, com o aval da Associação Britânica para o Progresso da Ciência.

Os resultados confirmaram antigas teses sobre os mecanismos psicológicos deflagrados pelas piadas. Também mostraram que o senso de humor de cada povo sofre influência da cultura local. Os internautas foram convidados a dar notas para cada concorrente, numa escala que ia do 'pouco engraçado' ao 'muito engraçado'. Os britânicos tenderam a achar mais graça em trocadilhos. Franceses e alemães preferiram as piadas de enredo absurdo. Os canadenses votaram nas candidatas que ironizavam a superioridade do vizinho americano. E os americanos deleitaram-se com zombarias domésticas: do pedantismo dos yuppies aos modos toscos dos texanos.

Enquanto os homens, de todos os países, animaram-se com enredos picantes, envolvendo sexo e preconceito, o público feminino repeliu baixarias. Um computador ajudou a analisar o conteúdo das concorrentes, chegando a resultados curiosos. Entre as piadas sobre animais, as protagonizadas por patos revelaram-se mais engraçadas. A piada mais sem graça do mundo é sobre galinhas - mas a culpa é do autor, não do bicho. (Sabe por que a galinha atravessa a rua? Para chegar do outro lado.)

A idéia de que o humor sofre influência da cultura é consagrada pelo senso comum. 'Há uma relação entre o modo de ser de uma população e suas piadas. O humor inglês é mais frio. Os judeus são pródigos em fazer piadas deles próprios', diz a psicanalista Camila Pedral Sampaio, professora da Faculdade de Psicologia da PUC de São Paulo. O assunto foi abordado no início do século XX em teorias de Sigmund Freud. Na obra O Chiste e sua Relação com o Inconsciente, o pai da psicanálise classificou as piadas em duas categorias. De um lado, há as 'ingênuas', que brincam com jogos de palavras. O prazer do trocadilho não está no conteúdo, mas na brincadeira que surpreende e faz rir. De outro, Freud observou os chamados 'chistes tendenciosos', piadas mais agressivas, de natureza erótica ou claramente preconceituosa. O riso, nesse caso, é provocado pela aversão às diferenças ou pela zombaria de estereótipos, como o dos fanhos e o dos caipiras.

Nos trocadilhos, a graça depende diretamente da linguagem - cujos significados foram definidos por uma cultura. Jogos de palavras podem ser muito engraçados - mas perdem o sentido quando traduzidos para outro idioma. Já nas piadas maliciosas, as vítimas caçoadas mudam de acordo com os preconceitos locais. 'Algumas piadas de português que a gente conta eu já ouvi na França referindo-se aos belgas. Ou nos Estados Unidos falando de poloneses', diz Jô Soares. 'O pato pode ser uma figura engraçada na Europa. Mas no Brasil o bicho que faz mais sucesso em piada é o jumento', diz Hubert, da turma do Casseta & Planeta. 'A galinha também provoca riso, porque a alusão a ela já desperta o duplo sentido', completa o humorista.

São Tomás de Aquino, no século XIII, já escrevia que 'brincar é necessário para levar uma vida humana'. 'Sua idéia é que as piadas repõem as forças do espírito, assim como as refeições recuperam as forças físicas', diz Luiz Jean Lauand, professor da USP e autor de pesquisas sobre o humor. Para o santo, ser um chato mal-humorado era quase uma forma de pecado.

Não importa o país, o riso provocado pela piada cumpre um papel social. 'Piadas nos fazem sentir superiores aos outros, reduzem o impacto emocional causado por situações de ansiedade ou ainda nos surpreendem pelo absurdo', complementa Richard Wiseman, o psicólogo que coordenou o concurso na internet. A receita de uma boa piada equilibra-se num fio de navalha. Se for muito agressiva, produzirá gargalhadas em círculos que nutrem certos preconceitos - mas despertará repulsa nos ouvidos sensíveis. Se for sutil e engenhosa, será contada até na sacristia - mas corre o risco de ser taxada de ingênua.


Excerto de Matéria da Época


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