Como Nascem as Piadas!


Texto escrito para a primeira: Semana Sem Piadas.


Este artigo tem duas partes. A primeira, só para honrar a temática de origem, apresenta seu quê de brincadeira e já a segunda é uma pretensiosa tentativa de ser relevante, consistente e lógico.


Parte 1:


Alguma vez você já se perguntou como nascem as piadas ou quem as inventa? Pois saiba que existem várias hipóteses e "profundas" especulações "científicas" sobre tão importante e misterioso campo do conhecimento humano!

Aparentemente, as piadas não têm autor. Ou, por um acaso do destino, você já viu alguém registrar a patente ou os direitos autorais de uma anedota? É por isto que as piadas vivem no domínio público, sem tem dono, e podem ser reproduzidas, copiadas e alardeadas livremente.

Justamente por serem de domínio público, não foram poupados esforços para
localizar suas origens, que , obviamente, mostraram-se infrutíferos. Assim, proliferaram respostas das mais esquisitas para tão enorme enigma.

As teses mais popularmente divulgadas são as seguintes:

As piadas são coisa de alienígenas: Os extraterrestres vêm aqui na Terra disfarçados de gente e as divulgam. É claro que o objetivo, sem dúvida alguma, é dominar nosso lindo planeta azul. Só não se conseguiu entender ainda por qual motivo eles, os E.T.'s, implicam tanto com as loiras e os portugueses?(...) ou

Geração Espontânea: É o seguinte: as piadas simplesmente fazem PUFF e brotam a partir do nada. Ou seja, são coisas sem pai nem mãe, que vivem por aí fazendo gracinhas sem objetivo algum.

São Obras de Deus: Ele, em sua infinita sabedoria e bondade, pôs as anedotas aqui na Terra para nos fazer mais risonhos e felizes, mesmo que às custas dos padres e freiras (rs).

Bem, deixando a esculhambação de lado, vamos tentar escrever algo que preste!


Parte 2:
Não. Não é assim que nasce.





Piadas: Nascimento, Ascensão, Apogeu, Decadência e Queda!

Para ser verdadeiro, existem algumas explicações lógicas e bastante razoáveis para o nascimento, o crescimento, a glória e a morte das piadas, como veremos abaixo.

1 - Nascimento: o Momento Zero ou Big Bang da Piada.

No cotidiano, onde só existia um imenso vazio sem graça, repentinamente... BUMM! ... Por acidente, algo muito engraçado acontece. Por ser bastante
distinto do entediado vazio anterior, o evento fica muito marcado na memória das pessoas que o presenciaram. Em momento posterior, os espectadores do “Big Bang” relatam o ocorrido a outros que não estavam lá no "Bumm", e assim por diante a história se propaga.

Aliás, a propagação das piadas é um processo bem interessante. Ele ocorre de forma semelhante às epidemias, ou seja, com uma velocidade muito grande. Como no caso de vírus de gripe, uma única pessoa é capaz de "contaminar" várias outras com a mesma piada. Esses novos contaminados, por sua vez, fazem o mesmo. Logo milhares ou milhões estão dominados pela nova gracinha.

Nesse processo todo de contaminação, atualmente é preciso salientar o papel das redes sociais, como Facebook, Twitter e Orkut, dentre outras. Essas novas mídias, por facilitarem a comunicação quase instantânea entre milhares de usuários, acrescentaram enorme velocidade e magnitude às epidemias de piadas.

Mas, é bom lembrar que, para que todo esse processo possa acontecer, assim como as crianças, as piadas para nascerem têm que ser gozadas(?!).


2 - Ascensão: Evolução Darwiniana das Piadas.

Se você está pensando que as boas piadas que leu ou ouviu nasceram da forma como elas lhe foram apresentadas, lamento informar-lhe, meu caro amigo, que estais completamente enganado. Elas nascem, crescem, tornam-se adultas e, inclusive, morrem. Portanto, a visão criacionista da questão não se sustenta.

Piadas passam pela evolução, no sentido Darwiniano da palavra: sofrem a tal da seleção natural, na qual somente as variantes mais fortes sobrevivem.

Traduzindo em miúdos o curto imbróglio do parágrafo acima: lembra-se do povo que assistiu o "Bumm" original, o nascimento da piada? Eles, com certeza, vão reproduzir o que viram, iniciando a evolução e seleção das piadas.

A reprodução, no entanto, segue o velho ditado: "Quem conta um conto aumenta um ponto!", ou seja, ao exporem o que viram , esses espectadores irão acrescentar detalhes, fazer pequenas modificações, alterações com o objetivo de tornar o relato do evento original ainda mais engraçado. Afinal, cada pessoa tem um jeito diferente de contar uma mesma piada.

As novas características, acrescidas a cada reprodução, acabam por criar um grande número de variantes da piada, umas melhores que as outras e algumas muito ruins.

Como seria de se esperar, as versões ruins logo morrem, pois, afinal, são poucos os que gostam de piadas sem graça e, enquanto isso as melhores versões ascendem.

Seguem-se, então, sucessivos processos seletivos sobre as melhores, como o já descrito: as boas ficam e se reproduzem enquanto as ruins morrem.


3 - Apogeu ou Glória das Piadas.

Depois da ascensão por inúmeras repetições do processo seletivo já descrito, que pode ocorrer tanto em períodos curtos como em períodos longos de tempo, surge a piada em seu formato final, com um número relativamente pequeno de variantes, mas todas mantendo a mesma essência.

Pode-se dizer que este é o momento de "estado da arte" da anedota, o ponto em que em que ela atingiu seu máximo aprimoramento, ou seja, está no formato em que consegue ser mais engraçado possível.

Depois de atingir o “estado da arte”, sendo o fruto aprimorado e engraçado da evolução, a piada tende a se tornar muito popular e a ser divulgada imensamente, pois quase sempre é garantia de riso certo e sucesso no “reino das gargalhadas”.

Ocasionalmente um ou vários humoristas tomam conhecimento da nova piada, o que pode ocorrer tanto na fase de ascensão como no apogeu. Caso isto ocorra durante a ascensão, esse processo será muito abreviado, pois os profissionais do humor, com suas habilidades especiais, logo encontrarão as melhores variantes.

4 - Decadência das Piadas.

Sim, as piadas envelhecem, não vivem para sempre. Um dia, como para quase tudo, a morte chega. Mas, antes, porem, de falar como e por que a morte se dá, é melhor e mais interessante falar um pouco sobre a grande amplitude que existe na longevidade ou tempo de vida das piadas. Quanto aos prazos de validade, as piadas podem ser classificadas basicamente em três tipos: Fugazes, Longevas e Recicláveis. Algumas duram apenas poucos dias, mas outras sobrevivem por anos e até décadas.

Piadas Fugazes:
Na maioria dos exemplos existentes, as piadas fugazes são pérolas do mais mórbido humor negro. Elas surgem rapidamente após uma grande tragédia, como um terremoto ou depois da morte de uma celebridade, por exemplo. Assim como apareceram, à medida que o assunto perde destaque ou atratividade entre a população e na imprensa, a tendência é que elas simplesmente evaporem e caiam no total esquecimento.


Piadas Longevas:
Alguém teorizou sobre as piadas que duram muito tempo, não me lembro quem; talvez tenha sido Freud ou algum outro "enganalista" qualquer. Disse-se que "as coisas que permanecem por muito tempo no pensamento das pessoas são um terreno fértil para o aparecimento de piadas". Essa tese parece explicar muito bem a quantidade, a variedade e o sucesso mundial das anedotas de cunho sexual. Por outro lado, se generalizarmos esse raciocínio, o mesmo tipo de explicação pode ser dado às piadas que se fazem com diferentes grupos étnicos, como judeus, turcos e portugueses. Aliás, as famosas piadas de loiras têm origem exatamente na discriminação a alemães e outros povos europeus, onde a incidência de cabelos claros é muito mais alta que em outras regiões do mundo.

Piadas Recicláveis:
Aqui não estou embarcando na moda do ecológico ou ambientalmente correto. As tais piadas recicláveis são muito flexíveis e facilmente adaptáveis. Com pequenas modificações, elas ressurgem e conseguem ser graciosas de novo, podendo ser reutilizadas. As "vítimas" preferenciais dessa categoria são as pessoas célebres e muito mal quistas na sociedade, quase sempre um político.

O exemplo mais notável, acredito eu, é o daquela em que um sujeito (muito conhecido) é seqüestrado e os seqüestradores exigem resgate, caso contrário o sujeito será queimado vivo. Prontamente a população se dispõe a contribuir... com gasolina, álcool, carvão, fósforos e isqueiros. Fica claro que o sujeito em questão, a “vítima do seqüestro”, pode ser qualquer pessoa. Portanto, bastará trocar o nome e a piada estará reciclada, pronta para ser aplicada a um novo “maledetto”.

Se a imortalidade existe para as anedotas, é muito provável que ela se encontre nas cercanias da piadas recicláveis.

5 - Morte das Piadas.

Após o envelhecimento ou decadência das piadas, só lhes resta o óbvio, a morte. Que fique claro que elas morrem quando não são mais contadas, não causam mais risadas e, mesmo que tenham sido registradas em formato escrito, em gravação de áudio ou de vídeo, não podem ser mais compreendidas.

Mas quais seriam as “causas mortis” das piadas? Quais seriam os fatores determinantes ou o motivo do término de suas existências? São as respostas a essas perguntas que tentaremos apresentar agora.


Exaustão:
É a causa mortis mais rápida das piadas.

No campo de conhecimento da física e, em particular, nas engenharias, um fenômeno chamado Fadiga dos Materiais é bastante estudado. Esse fenômeno explica como ocorre a ruptura progressiva de materiais (exaurindo sua utilidade) quando submetidos a muitas repetições do seu uso normal. Com as anedotas acontece um processo similar.

Com piadas excessivamente populares, contadas por muitos humoristas, divulgadas por muitas mídias e, em especial, com as Fugazes, descritas pouco acima, a mais provável causa de morte é a exaustão.

As repetições sucessivas tornam a piada conhecida pela grande maioria dos interessados nesse tipo de assunto. Sabendo-se que ninguém gosta de ouvir muitas vezes a mesma história, seja humorística ou não, estamos com o caminho praticamente completo para a exaustão por fadiga.

Como na fadiga dos materiais, a exaustão de uma piada é sua incapacidade de continuar funcionando no nível esperado, isto é, causando risos. Portanto, ela perde o seu uso normal.

Quando a exaustão acontece, é mais provável que a anedota torne-se mais fonte de aborrecimento do que de diversão. Está selado o seu destino.



Obsolescência:
É o processo de extinção mais lento.

Em Biologia a obsolescência significa o fim de um processo fisiológico, através da redução gradativa, até o conseqüente desaparecimento final.

Mais recentemente, o termo Obsoleto tem sido muito aplicado no contexto das tecnologias. Obsoleto significa tudo aquilo que está ultrapassado, fora de uso, antiquado. Obsoleto é rótulo também aplicado a quaisquer coisas que, com o passar do tempo, vão sendo substituídas, e isto ocorre com uma freqüência muito grande em função do avanço tecnológico.

Se, como vimos, a obsolescência está presente desde a Biologia até a Tecnologia, por que ela também não se aplicaria às expressões artísticas, como o humor e, dentro deste, às piadas? A resposta está clara: a obsolescência se aplica plenamente a qualquer tipo de humor.

Demonstrações desse processo terminal das piadas são inúmeras. Em todos os casos as elas vão perdendo progressivamente a graça. Três exemplos:

  • Meia Idade: As piadas da Xuxa com o Pelé – somente pessoas adultas, na faixa dos 40 aos 60 anos conseguem entender. Estão razoavelmente obsoletas.
  • Terceira Idade: as piadas de “turcos” estão em avançado processo de obsolescência. Elas surgiram da fama de espertos dos mascates turcos (que na realidade eram imigrantes libaneses). Mas quem hoje em dia sabe o que é ou conhece um mascate turco? Penso que só pessoas com mais de 50 anos conseguem entender.
  • Totalmente obsoletas: Antigamente, a revista Seleções do Reader's Digest publicava as famosas Piadas de Caserna, que falavam quase sempre das carreiras militares. Elas se tornaram populares logo após a Segunda Grande Guerra. Acredito que causem riso somente em nonagenários, que ainda não sejam senis por nenhum motivo. 
 
Incorreção Política e Ilegalidade:
A mais nova forma de morte das piadas.

Embora a expressão “Politicamente Correto” seja usada para classificar alguns comportamentos que descrevo abaixo, prefiro usar “Moralmente Correto”, tendo em vista que expressa com maior clareza o tipo de valores envolvidos.

As piadas moralmente incorretas são aquelas que propagam posturas discriminatórias e ofensivas para certas pessoas ou grupos sociais. Recentemente, digamos na última década, esse tipo de humor tem sido muito combatido, assim como os outros tipos de práticas que se enquadrem como moralmente incorretas. Os grupos de defesa ou proteção de gays, homossexuais negros ou pretos, por exemplo, são muito combativos contra a discriminação e a intolerância e contribuem muito para tornar o que não é Politicamente Correto.

Em alguns casos foram criadas leis que proíbem explicitamente certas práticas. Piadas discriminatórias contra negros são literalmente ilegais, proibidas e penalizadas por lei como crimes.

De forma abrangente, no Brasil, o moralmente incorreto está associado a um tipo de humor que envolve homofobia, violência sexual, racismo, pobreza, machismo e outras formas de degradação da dignidade humana.

Sendo raro que uma piada seja moralmente correta em sua totalidade, espera-se que a onda do “politicamente correto” não extrapole os limites do lógico necessário e se transforme numa epidemia aniquilando milhares de piadas e tornando o mundo e a vida muito mais sem graça.

Observação:
O “grande mestre” atual nessa modalidade de “assassinato” de piadas é Rafinha Bastos, ex-programa CQC da Rede Bandeirantes de Televisão. Ele é um bom humorista, mas também deve ser masoquista, já que nunca resiste à tentação de fazer uma piada politicamente incorreta e acabar debaixo pancadas públicas e judiciais.

Em um curto período de tempo, inferior a um ano, Rafinha se envolveu em duas polêmicas que acabaram em litígio. Uma é o famoso caso do “Eu comeria a Wanessa (Camargo) e o bebê (filho dela)”, que lhe custou a demissão do quadro do CQC. A outra foi provocada por uma infeliz piada envolvendo o nome da APAE. Rafinha disse que internou o próprio pênis na Apae depois de usar um preservativo com efeito retardante. Essa também deve lhe custar caro.

Anacronismo:
Piadas, cedo, tarde ou muito tarde, passam a sofrer de anacronismo e morrem. Na verdade, o anacronismo permeia todas as outras causas mortis citadas acima, ocorrendo concomitantemente.

O anacronismo consiste em atribuir os costumes de uma época a outra. É um conceito utilizado para designar algo que está fora do seu tempo. Ocorre quando pessoas, eventos, palavras, objetos, costumes, sentimentos, pensamentos, piadas ou outras coisas que pertencem a uma determinada época são erroneamente retratados em outra época. Anacronismos podem ocorrer em um relato narrativo ou histórico, numa pintura, filme, nas expressões artísticas, no humor ou qualquer outro meio.

Mais cedo ou mais tarde, o anacronismo levará à morte todas as piadas que se baseiem em fatos, costumes e valores de uma a época passada.
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